Capitulo Maceió
Em Março de 1973 meus pais se mudaram do Kauai para Maceió, em Alagoas, pois meu pai trabalhava com irrigação de cana de açucar nas plantações do Hawaii e o nordeste tinha muita cana de açucar em plantações áridas precisando jogar água. Tinha toda a mobilia e livros da família para levar e as pranchas tiveram que ficar prá trás no Kauai. Ao chegar em Maceió, me ví morando no setimo andar em frente a praia de Pajuçara, vendo as ondas quebrarem nas corais em frente, mas sem poder surfar. Quando eu perguntava aos vizinhos e amigos da família sobre o surf, eu geralmente recebia olhares curiosos. Ninguém nem sequer tinha ouvido falar nesse negócio de deslisar nas ondas. Papo de gringinho maluco, eles achavam. Finalmente um filho de usineiro disse que já tinha visto numa revista lá do sul, mas que por aquelas bandas, ninguem praticava isso, e não havia pranchas em lugar nenhum em Maceió. Ele ainda me perguntou se uma jangada servia. Lá havia muitas jangadas e uma fábrica de jangadas debaixo de uma amendoiera em frente a minha casa. Bem, com jangada fica difícil surfar, então fiquei literalmente a ver navios por quase um mês.
Finalmente, uma noite estavamos numa festa na casa de um amigo de meu pai, que também veio do Hawaii para cuidar da cana. Só que esse coroa surfava de long e no caminho foi esperto e parou em Malibu, na California onde ele comprou dois longs que vieram na bagagem dele até Maceió. Eu nada sabia dessas pranchas até que as crinças começaram a brincar de pique-esconde e eu me escondi na garagem. Estou eu escondido atrás do carro quando olho para cima e lá no alto, perto do teto, ví as pranchas. Pirei. Acabou o joguinho de pique esconde alí mesmo. Corri para a sala onde estavam os adultos reunidos, indaguei logo "Mr. Morton, Mr. Morton....isso aí na garagem são pranchas de surf?".
O coroa, com uns whiskeys já na cabeça, me olhou e disse "São. porque? Você sabe surfar, moleque?" Eu disse que sim e meu pai confirmou. "Passa aí de dia então e pode pegar uma prancha emprestada para ir surfar, se seu pai deixar." Meu pai sabia que não adiantava tentar me segurar quando se tratava de surf e liberou na hora. No dia seguinte as seis da matina, eu bati palmas no portão e ninguém respondia. Finalmente depois de uns gritos, a janela do quarto do Mr. Morton se abriu e ele esfregando os olhos me perguntou meio de mal-humor (A ressaca), "Que foi moleque? O que você quer a essa hora da manhã?" Falei que queria pegar a prancha. Ele mandou um "Vai lá e pega então!" e bateu a janela prá continuar o bode. Fui lá na garagem e achei uma escada prá descer uma prancha. Não conseguia levantar a prancha pois estava muito no alto. Eram longs tradicionais, um 9´8" e outro 10´6" que tinham três longarinas e aquelas laminações pesadas do antigamente,com quilhas retangulares. Eu estava ficando aflito e não queria aborrecer o coroa de novo mas estava desesperado para surfar. Finalmente resolvi acorda-lo de novo. Ele ficou meio puto de novo mas foi lá na garagem e desceu a menor das duas para mim. "Só não tenho parafina. Pega um vela na cozinha." fui correndo para a praia da Jatiuca com aquelo monstro carregado na cabeça. Era quase impossível segurar debaixo do braço, mas era tudo que eu queria naquele momento. Criei um crowd na areia rapidinho. Todos paravam para ver o molequinho branquinho deslisando nas marolas com a tábua gigante. Nunca tinham visto coisa parecida, e quando eu perdia a prancha e tinha que pegar na areia (Não existiam cordinhas), eles tentavam se comunicar comigo mas eu não entendia uma palavra de português e ficava por gestos mesmo. "Surf!" eu dizia "Surf!". E todos sorriam. Eu estava feliz de novo. Devolvi a prancha no fim da tarde e no dia seguinte as cinco e meia da matina, lá estava eu no portão do Mr. Morton de novo. Dessa vez a prancha já estava embaixo, mas tive que acorda-lo novamente para entrar e pegar. Depois de mais uns dias dessa rotina ele falou "Conheço seu pai há muitos anos, moleque. Pega essa prancha e leva prá sua casa, em vez de deixar aqui. Deixa eu dormir!" Uhuuuu!
Às quatro e meia da manhã seguinte eu estava a caminho da praia da Avenida, onde eu já havia visto que tinha ondas bem melhores do que perto de casa. Andava quilometros sozinho a pé com o long na cabeça pela escuridão da madrugada de Maceió com aquele monstro na cabeça, amarradão. Rapidamente fiz amizade com os playboys, filhos de ricos. Aí eles passavam lá em casa cedo e a gente ia de carro. Melhorou muito. Só tinha essa prancha na cidade e eu ensinava a galera a surfar em troca de transporte. Chegou a um ponto de ir caravanas de carros de playboys seguindo a eu e a prancha até onde o surf estivesse melhor. Quando o mar subia mesmo, os playboys, a maioria mais velho do que eu, ficava na areia olhando enquanto eu desenvolvia meu surf de long sozinho nas ondas. Ficavam loucos para aprender mas só levavam na cabeça se o mar estivesse um pouco maior. Adquiri muito respeito e bons amigos. Finalmente um filho de usineiro rico, que foi a São Paulo visitar a familia dele, comprou e trouxe uma pranchinha branca de uns seis pés, zero km. Como ele não sabia surfar, foi logo me procurar e formamos a caravana de novo, já com um foguetinho no quiver. Foi lindo aquele dia. O mar estava um metro com series perfeitas entrando na Praia da Avenida com excelente formação. O vento era terral. Passei vela (Ele não comprou a surfwax porque não sabia) no foguete e entrei. Na primeira onda vaquei, pois tinha perdido o pé de pranchinha depois de tanto tempo no long dinossauro. Na segunda dropei uma direita da serie e mandei pro lip. POW! Radicalizei logo todo aquele surf contido no long numa única batida espetacular e re-entrei quase vertical. Na sequência a parede levantou, abaixei um pouco e uhuuu!.... meu primeiro tubo em águas brasileiras. um cut-back, e mais um inside cheio de manobrinhas e a galera na areia estava gritando e pulando e assobiando como um bando de loucos. Uma discussão na areia, pois todos queriam surfar naquele momento, e o dono da pranchinha nova ganhou o argumento e agarrou o long e entrou também, fissurado mais do que nunca em aprender a fazer aquilo. Ele treinava com o long e eu arrepiava na pranchinha dele, dando as dicas. Quando ele cansou, entrou outro no long e cada um ia na sua vez. Ficavamos na praia o dia inteiro. Já fazem muitos anos, mas ainda lembro de alguns nomes, entre eles o Sotero e o Mosquito.
Bem, um belo dia no colégio, vieram me avisar que tinha umas pranchas de surf numa vitrine de uma botique masculina no centro de Macieó. Pulei o muro do colégio a fui correndo conferir. Chegando lá, era um senhor argentino gordo que obviamente não sacava nada de surf. Passei umas horas namorando as pranchas (tinha umas quinze) , e finalmente me veio uma luz. Perguntei ao coroa se as pranchas eram testadas. Ele olhou prá mim e disse "Não. Porque?" eu falei que ele tinha que garantir a qualidade e funcionabilidade das pranchas antes de vender para não arrumar reclamações. Ele engoliu. Foi a glória. Perguntou se eu sabia surfar e se eu poderia testar as pranchas da loja dele. "É claro!" eu retruquei sem piscar. Ele ainda perguntou se podia fazer uma faixa para anunciar as pranchas e a loja dele lá na praia. Falei que sim, é claro que sim! No sabado seguinte lá estava eu na praia com três pranchinhas zero quilômetro e uma caixa de parafina surfwax, minha caravana de playboyzada com o long e a outra pranchina. A faixa era enorme e dizia "Venha ver para crer, surf é fácil - Botique Hombre" Naquele dia aprovei todas as três pranchas que foram vendidas ali na praia mesmo. No domingo mais três pranchinhas foram para o teste e eu reprovei uma que foi enviada de volta ao fabricante - a extinta Gledson. Como ele já colocou outro pedido de mais quinze pranchas, a Gledson também engoliu. As outras duas foram vendidas ali mesmo na praia. Todo fim de semana eu testava e divulgava as pranchas e a playboyzada só comprava depois que eu testasse e aprovasse a prancha. Hoje lembrando, parece surreal, mas era isso mesmo. Eu testei pessoalmente as primeiras 50 ou 60 pranchas vendidas em Maceió até que o pessoal começou a comprar tanta prancha que não dava mais tempo de testar todas. Eu simplesmente dava o aval. "Essa tá boa, pode comprar." Teve uma que adorei e separei, dizendo que estava na dúvida se estava boa ou não. Falei com meu pai que foi lá na loja e o coroa fez a prancha no preço de custo dividido em seis cheques. A essa altura dos tempos, já tinha crowd de prego todo fim de semana. Pelo menos perto de mim. Se eu ia surfar em outra praia, ia a caravana toda junto. Era hilário. Como é bom ser feliz! É claro que ganhei todos os campeonatos que começaram a surgir nos próximos anos. Em 76 meus pais se mudaram para Campos, RJ. Mas essa história já é outro capítulo.







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